quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SILENCIO(LH)SOS


SILENCIO(LH)SOS
(Marcello Dhias)

Olhos silenciosos
Falam para mim
Meio que esperando respostas
Do que não sei, ou quero ver

Olhos silenciosos
Zelam por mim
Pois nessa hora meu olhar é vago
Vagueando atrás de respostas
Que o tempo ainda não trouxe

Olhos silenciosos
Olham para mim
Enxergam em mim
O que tenho medo de descobrir

Olhos silenciosos
Esperem por mim
Eu ainda estou aqui
E vejo vocês

SILENCIO(LH)SOS

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DESCARTÁVEL


DESCARTÁVEL
(Marcello Dhias)

No baralho da vida
Descobri que sou uma carta
Não que eu me sinta como uma
Mas me disseram

Nem os reis, valetes e damas escaparam
Todos viraram cartas
Nesse grande baralho
Nesse grande jogo da vida

Se a família real está lá
O que dirá de mim?
Um reles plebeu
Lançado a sorte todos os dias
Para não ser descartado

Mas para me manter no jogo
Tenho que blefar
Tenho que trapacear
Tenho que iludir meus parceiros

Tenho que fingir a todo tempo
Que sou um quatro de paus
E Zap...
Ganhei de novo
Tudo depende da jogada
Tudo depende da rodada

E assim,
No baralho da vida
Mãos habilidosas
Embaralham-me
Enquanto eu servir
Enquanto eu estiver no jogo
Enquanto eu aceitar o jogo

A descartada final
Essa real
Ainda demora
Enquanto isso
Vou jogando
Como um

DESCARTÁVEL

terça-feira, 13 de outubro de 2009

AO VINHO


AO VINHO
(Marcello Dhias)

Eu vim tomar o vinho
Vim porque vinha
Pois o vinho é de longe
O vinho é do Porto

O porto das falas
Onde minhas malas
Estão sendo abertas

O porto da alma
Que a luz de velas
Estão sendo queimadas
Palavras

Atenuadas
Pelo efeito do vinho
Que nos permite
Como adivinhos
Prever o futuro
Falar do presente
Entender o passado
Pensar na gente
Com graça
Dei graças



AO VINHO

AMORTECEDOR


AMORTECEDOR
(Marcello Dhias)

Amor e dor
Andam juntos
Se a dor primeira
Dor de amor
Se segunda
Amor na dor

Mas se a dor é tecida
O amor tece a dor
Mas se ela é curada
O amor sara a dor

Mas se o amor tece
Se o amor também amortece, a dor
A morte é a dor
Separada do amor

Dor e amor
Andam juntos
Equilibram-se
No balanço

AMORTECEDOR

NA CLAREIRA



NA CLAREIRA
(Marcello Dhias)

Com a crença
Que algo em mim
Podia ser doado
Aproveitado
Coloquei-me a sua disposição
Para me desmatar
Tornar claro
O meio
Deixar um pouco de luz entrar

Mas na ilusão da clareira
Que era de lei a minha madeira
Entrou luz demais
E o solo, que ao escuro
Já se acostumara
Se secou

Hoje vivo a plantar
Outras árvores
Que levam algum tempo para crescerem
Mas as coisas estão indo
Pode-se observar até alguns passarinhos
Com seus ninhos
No alvorecer
A luz agora entra, sob medida

NA CLAREIRA

ADORMECI



ADORMECI
(Marcello Dhias)

Há algum tempo
Senti a dor
Adormeci

Foi algo estranho
Entranho
Me sedei

E dela se fez o vazio
O delírio
Estanquei

Dela vieram palavras
Envenenadas
Adoeci

Do veneno a saída
Decidida
Encontrei

De tudo
O juramento
Perdido no tempo
Acordei

domingo, 11 de outubro de 2009

A VI(N)DA


A VI(N)DA
(Marcello Dhias)

Dela se fez minha vida
Assim como outras cinco
Dor, coragem, afinco
Bem vinda(s)

Dela se fez a força
A marca
De sua vida
Amarga
Sofrida
Superada
Agradecida

Dela vem a fé
Inabalável
Acredita
Estendida a todos
Agradece
A graça
Há muito alcançada
Há muito pedida

Dela vem o exemplo
Do sonho
Da espera
Da paz
Do amor
Do sustento
Da terra
Do verde
Da dor
Da luta

Ela lhe deu esse nome
A mãe, Elisa
Nos trouxe a sorte
A mãe

A VI(N)DA

CONSA(N)GRA(N)DO


CONSA(N)GRA(N)DO
Sobre o choque das religiões e etnias
(Marcello Dhias)

A sua fé, sagrada
O seu Deus, tudo
A minha origem, negada
A minha raça, escudo

Que te protege do meu mal
Que você quer para mim
Que te protege do meu bem
Que você vê em mim

A minha raiz, arrancada
Os meus deuses, proibidos
A sua cor, implantada
O seu sangue, inserido

E assim
O meu sagrado
Agora é mal
Para que o seu
Seja o bem

O meu sangue
É animal
Sacrifício da vida
Sacrifício de mim

CONSA(N)GRA(N)DO

(O QUE) EL(A)ES QUEREM(?)


(O QUE) EL(A)ES QUEREM(?)
Um olhar estereotipado sobre os gêneros
(Marcello Dhias)



Elas querem eles
O filho
O homem
O recurso
O colo
O amor
O controle
O espelho
O alheio
O emprego
O risco
O boato

Elas querem elas
A casa
A fada
A bolsa
A roupa
A viagem
A virgem
A moda
A salada

E assim vão querendo ser
Amadas
Respeitadas
Desejadas
Cobiçadas
Decifradas
Exclusivas
Entendidas

Elas ainda querem
O santo
O falo
O macho
A alma
A graça
A vida


Eles querem elas
A cria
A mãe
A luta
A rua
A fuga
A multa
A tela
A família
A posse
A lei
A matéria

Eles querem eles
O lar
O lógico
O money
O auto
O canto
O sexo
O campo
O prato

E assim vão querendo ser
Amados
Respeitados
Desejados
Cobiçados
Decifrados
Exclusivos
Entendidos

Eles ainda querem
A santa
A vulva
A puta
O trato
O riso
A vida

(O QUE) EL(A)ES QUEREM(?)
Um olhar estereotipado sobre os gêneros

sábado, 3 de outubro de 2009

OS PAIS (QUEREM) SEUS FILHOS


OS PAIS (QUEREM) SEUS FILHOS

(Marcello Dhias)


Os pais parem
Pare de seguir seus filhos
Os pais olham
Olhem para onde vão seus filhos
Os pais querem
Parar os seus filhos
Os pais querem
Que olhem seus filhos

Os pais falam
Onde está o meu filho
Os pais pedem
Parem meus filhos
Os pais perdem
Perdem seus filhos

Alheios a tudo
Os filhos querem
Querem seus pais
Os filhos pedem
Pedem aos seus pais
Brinquedos, dinheiro, carinho

Os filhos querem
Querem que seus pais os olhem
Os filhos querem
Que seus pais implorem
Os filhos querem
Querem seus pais
Os pais querem
Querem seus filhos

O mundo quer
Quer os seus pais
O mundo quer
Quer os seus filhos

OS PAIS (QUEREM) SEUS FILHOS

A MÚS(IC)A


A MÚS(IC)A
(Marcello Dhias)


Matisse, música 1907


Mais uma mús(ic)a eu vi
Digo, ouvi
O que ela dizia
Já senti
Já vi

Mais uma letra
Mais um ritmo
Mais uma voz
Mais um signo

E ela se incorporou a mim
Assim
Sem minha permissão

Já tínhamos nos visto antes
Já tínhamos nos ouvido antes
Já tínhamos nos tocado antes

Mais uma mús(ic)a eu vi
Digo, ouvi
Digo, senti
Ela me toca

A MÚS(IC)A

ADOR(O)


ADOR(O)
(Marcello Dhias)

Te adoro tanto
Que até tento
Sem lamento
Prender o sentimento

Guardado
Testado e aprovado
Pelo tempo
Pelo ente
Pela gente

Te adoro tanto
Que às vezes penso
Que amo
Mas como
Se clamo
Pelo abandono

Te adoro tanto
Que escondo
Do pranto
Do peito
Da gente

ADOR(O)

A(M)PARADA


A(M)PARADA
(Marcello Dhias)

De repente
A parada
Breve, às vezes longa
Desconecta, desconexa

De repente
A palavra
Pedida
Lamentada
Conexa, complexa

De repente
O riso
Do dito
Do mito
Do fato

De repente
O anseio
Do seio
Do páreo
Do amparo

A(M)PARADA

SUS(P/T)EN(S/T)O


SUS(P/T)EN(S/T)O

(Marcello Dhias)


Sus(p/t)en(s/t)o
De tudo, de todos
Sus(p/t)en(s/t)o do mundo
Sus(p/t)en(s/t)o da vida

O diretor observa
O ator sem direção
O ator atua
Atenua
Toda sua suspensão (sustentação)

Suspenso
Sustento
Lógicas, fatos
Sus(p/t)en(s/t)o
Lamentos

O minuto se foi
Resolvido no tempo
O tempo...
Amigo do autor
Do autor no tempo

SUS(P/T)EN(S/T)O

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

M(ACHO) E FEME(R)A(S)


M(ACHO) E FEME(R)A(S)
(Marcello Dhias)

Machos e fêmeas se atraem
Machos e fêmeas se repelem
Ligações covalentes, iônicas
Ligações sinápticas, elétricas
Ligações mentais, estéticas
Ligações normais
Ligações letais

Machos e fêmeas se atraem
Atraem-se e repelem-se simultaneamente
Átomos no comando
A lógica da matéria

Machos e fêmeas se atraem
Reproduzem-se
Machos e fêmeas se repelem
Se esgotam, se acabam

Imãs cercados de pólos por todos os lados
Ligações carmais
Ligações carnais
Ligações reais?

M(ACHO) E FEME(R)A(S)